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Ensinamento

Moksha, à procura do que já sou
Miguel Homem
23-11-2015


Siddhi significa realização, feito, façanha, aquisição, obtenção, conquista, êxito. As conquistas na nossa vida são de muitos tipos, mas geralmente dividimos em dois. Uma é a conquista de uma coisa que ainda não adquirimos. Em sânscrito aquilo que ainda não foi adquirido é chamado asiddha vastu. Se eu quero um milhão de euros e não tenho é chamado asiddha vastu. Quando quero a conquista de uma coisa que ainda não foi adquirida, tenho de trabalhar para isso.

No vedānta nós falamos de um tipo de conquista único, a conquista de algo que já foi conquistado, a aquisição de uma coisa que já foi adquirida. Em sânscrito o que quer que já tenha sido alcançado é chamado siddhaḥ e a conquista do já conquistado é chamada siddhasya siddhi. Então temos dois tipos de siddhiḥ, siddhasya siddhiḥ ou asiddhasya siddhiḥ, conquista do conquistado ou a conquista do não conquistado, respectivamente.

Que raio vem a ser isto? Como podemos falar da conquista de alguma coisa que já foi conquistada? Essa busca ou conquista são possíveis quando a pessoa não é consciente de uma coisa: é ignorante do facto de que o objectivo já foi conquistado, já é adquirido, é próprio.
Imaginem que vamos jantar à casa nova de uns amigos. Eu não conheço a casa nova, é a primeira vez que lá vou, sigo as indicações e paro em frente a uma casa. Sem saber que a casa em frente é a casa de que ando à procura, pergunto a uma pessoa quantos quilómetros ainda tenho de andar para chegar à nº 108. As casas que vejo não têm número. Eu já estou em frente à casa 108, mas não o sei. Na minha mente ainda quero chegar à casa 108, apesar de já ter alcançado a casa 108. Assim, eu posso tentar alcançar uma coisa já alcançada, se eu não sei que já foi alcançada. Posso perder alguma coisa por causa da ignorância que tenho da sua presença e esforçar-me por alcançar isso.

Se sem saber que estou em frente à casa 108, pergunto quanto tempo tenho de caminhar, quanto esforço é necessário para chegar à casa 108, que esforço me separa? De facto, se eu começar a andar não vou alcançar o objectivo. Em vez disso, vou afastar-me do objectivo. O alcançar da casa tem de ser apenas numa forma, conhecimento. Alguém tem de me dizer que a casa 108 não é algo a ser alcançado mais tarde, mas já foi alcançada. Podemos, por isso, perder uma coisa já alcançada por causa de ignorância. Neste caso, a sua conquista é na forma de conhecimento. Assim, siddhasya siddhiḥ, o alcançar do já alcançado é na forma de conhecimento; asiddhasya siddhiḥ, a conquista do ainda não alcançado é na forma de karma. É o conhecido exemplo da história do décimo homem. Quando ele quer encontrar o décimo homem, isso tem de ser na forma do conhecimento "eu sou o décimo homem". Esse é o jñānam, é só um reconhecimento.

Aqui, o nosso objectivo é sat brahma e sat brahma é um siddha vastu, é uma coisa já alcançada. Sat é aquilo que não é negado em nenhum momento, é o permanente, o livre de limitação que tudo permeia. Se é nityam e sarvagatam, está sempre disponível, aqui e agora! Uma vez que sat está aqui e agora, já é siddha vastu, uma coisa conquistada. E se, ainda assim, procuramos sat brahma, deve ser por causa da ignorância de que somos esse brahman. Assim, brahman é siddha vastu e no caso de siddha vastu, o sādhana, a prática, o esforço, não é no sentido de acção, não é fazer alguma coisa, mas pelo conhecimento, é, de facto, encontrar, entender, adquirir. Se se diz qualquer uma destas palavras como conhecer, logo surge a ideia do tempo que vamos levar nisto. Se eu começar agora, quando tempo vou demorar? Temos de entender que nós não estamos a alcançar brahman. Conhecer, entender, é saber que esse brahman não tem de ser conquistado. Esse é o conhecimento. Através do conhecimento nós não alcançamos brahman, através do conhecimento nós sabemos que brahman não é algo para ser alcançado.


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