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Prática

Do corpo, a plenitude. Do corpo à plenitude
Tales Nunes
14-09-2007


“Aquele que percebe a verdade do corpo, pode vir a conhecer a verdade do universo”.               Ratnasára1

                                                 

O corpo físico, a parte mais densa do nosso ser, para muitas pessoas, é ainda algo distante e desconhecido. Geralmente essas pessoas lembram do corpo apenas quando estão com algum desconforto físico ou quando são acometidas por alguma doença. E, imaginemos, se a parte mais densa do nosso ser pode ser de tal maneira negligenciada, o que dizer, então, do que temos de mais sutil, como a energia e os processos mentais e emocionais?

Nesse sentido, a prática de Hatha Yoga serve-nos como um mapa de nós mesmos, o qual nos dá recursos para, pouco a pouco, nos conhecermos mais profundamente. Esse é um processo que é, inicialmente, mais perceptível no nosso corpo denso e se torna mais sutil à medida que apuramos a nossa sensibilidade e a nossa consciência.

Seguindo a lógica de começarmos pelo mais denso, como primeiro passo, os textos clássicos de Hatha Yoga recomendam que iniciemos a nossa prática com os shatkarmas, as purificações, depois deve-se passar às posturas psicofísicas (ásanas), em seguida aos exercícios respiratórios (pránáyámas) e, por último, à meditação (dhyána). A Gheranda Samhitá, tratado de Hatha Yoga medieval atribuído ao sábio Gheranda, do Sri Lanka, por exemplo, divide a prática nessa ordem e cita seus benefícios, dizendo que a purificação se alcança com a prática regular dos seis shatkarmas; a força se consegue com os ásanas; a leveza se consegue através dos pránáyámas; a percepção correta se consegue mediante dhyána. No entanto, não serão esses os resultados apresentados aqui, mas serão feitas reflexões, baseadas tanto em textos de Hatha Yoga quanto em textos upaniミádicos, e na minha experiência pessoal, sobre o  aprofundamento da consciência nos nossos cinco corpos: corpo físico (Annamayakosha), corpo de energia (Pránamáyákosha), corpo mental e emocional (Manomayakosa), corpo de inteligência (Vijñanámayákosha) e corpo de bem-aventurança (Ánandamaykosha).

Na Gheranda Samhitá estão presentes vinte técnicas de higiene interior. Algumas, não recomendamos que se façam em casa, ou mesmo que sejam feitas. Uma delas é o Bahishkrita-dhauti, que é descrita a seguir:

             “Faz kaki-mudrá (boca em forma de bico de corvo) e inspira lentamente. Enche de ar o estômago e mantém ali durante uma hora e meia. Depois empurra o ar forçando-o a descer aos intestinos. Este dhauti deve ser guardado em segredo e jamais ser revelado a ninguém. 1:23. Em seguida, de pé e submerso em água até o umbigo, extrai o intestino grosso (shakti-nádí). Lava-o com as mãos até que esteja completamente limpo. Finalmente, o introduz de volta ao abdome. 1:24. Este procedimento, de difícil realização para os deuses, deve manter-se em segredo, pois proporciona um corpo divino (deva-deha).”(p.81-82)2

            Essa técnica e outras que são apresentadas nesse livro parecem-nos impossíveis de serem realizadas, mas o fato é que lá estão. Será que os yogues da antigüidade realmente as praticavam ou esta descrição é apenas figurativa? Fica a pergunta. O importante, porém, é que, nesse tratado, bem como na Hatha Yoga Pradípiká, estão descritas técnicas muito simples e eficientes de purificação do nosso corpo físico e energético, como o nauli e o kapálabháti, por exemplo.

Essas são práticas simples e eficientes que ajudam não apenas a purificar como também, em relação às pessoas que pouco ou nenhum contato mantém com o seu próprio corpo, a tomar consciência do seu corpo físico e dos seus processos fisiológicos. Quem já imaginou, a não ser algumas crianças, que poderia isolar os músculos reto-abdominais, ter controle sobre e brincar com eles, fazendo ao mesmo tempo, uma intensa massagem nos órgãos internos? Essas são “brincadeiras” - gosto de pensar assim - que o praticante de Yoga descobre e que faz com que ele crie intimidade com o seu corpo físico (Annamayakosha) para, a partir daí, passar a processos mais sutis da prática.

Posteriormente, então, segue-se a prática de ásanas, que, além de fortalecer o praticante, como diz a Gheranda Samhitá, faz com que ele, num processo de constante auto-observação e tomada de consciência do que acontece no seu corpo, de maneira experiencial, aprenda como ele funciona. A partir daí, vem o conhecimento dos nossos limites e bloqueios: do que devemos e podemos fazer com ele ou não, das nossas melhores escolhas alimentares, do que nos faz bem e do que não nos faz bem.

Ao mesmo tempo, os ásanas levam o praticante a perceber melhor o seu corpo de energia (Pránamáyákosha) e o seu corpo mental e emocional (Manomayakosha).3 O yogue coloca o corpo físico em posições totalmente novas e desafiadoras, as quais fazem com que a energia circule de maneira diferente no corpo e, conseqüentemente, trazem à mente e ao coração pensamentos e emoções específicas. Dentro disso tudo, ele assume o papel, ao mesmo tempo, de cientista e de cobaia no laboratório. Coloca-se em experiência e observa o resultado. A diferença entre o observador yogue e o cientista, porém, é que o primeiro observa sem julgamentos ou classificações, mantendo uma atitude de passividade, na posição da consciência testemunha (sakshi), como está descrito na Sámkya Kariká:“O espírito é aquele que vê. Está isolado. É indiferente: um simples expectador inativo”.

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A partir desse ponto, passamos aos pránáyámas, controle do alento vital. Contudo, não me identifico com a palavra “controle” e prefiro usar “indução”. O praticante, através da respiração, induz a energia a percorrer caminhos novos. É, nesse momento, que os nossos bloqueios energéticos ficam mais evidentes e nos deparamos com medo, ansiedade e emoções contidas que vêm à tona. Por esse motivo, muitas pessoas têm uma incrível resistência à prática de pránáyámas. Essas emoções, medos e ansiedades (vrittis) fazem parte do nosso ser e vêm à tona em momentos específicos das nossas vidas; mas nós não percebemos ao certo de onde e quando elas realmente surgem e somos levados por elas e agimos movidos por elas, condicionados.

Lembra da ignorância que certas pessoas têm com relação ao seu corpo físico? O mesmo acontece com relação às emoções, medos e ansiedades. Muitas vezes, nas nossas vidas, tudo está bem exteriormente, mas, internamente, existe uma ansiedade que não sabemos de onde vem, que nos traz infelicidade e nos faz agir de determinada maneira. Somos rudes com quem está ao nosso redor, não damos valor às nossas conquistas...  A vantagem de nos expormos a essas sensações durante a prática de Yoga é que nos propomos a fazer isso sentados e conscientes de que devemos apenas observar e assimilar. Dessa maneira, ampliamos a nossa consciência até nosso corpo de inteligência (Vijñanámayákosha), cultivando e desenvolvendo o discernimento.  É o discernimento que nos dá o alerta, quando esses vrittis surgem em situações cotidianas, e a consciência de que agir movido por eles só me traz mais sofrimento e me mantém num ciclo vicioso de ação e reação automáticas; é o discernimento que nos dá a possibilidade de quebrar os nossos condicionamentos e transformar radicalmente nossos hábitos.

No próximo e último passo, na meditação, tomamos o nosso assento (ásana) com a coluna ereta, firme e confortável, como está descrito nos Yoga Sútras. Tudo o que fizemos até então trouxe-nos a essa posição. E é, nessa posição, que à medida que os pensamentos se acalmam, as emoções se estabilizam, o ego nos dá uma pequena trégua, tomamos contato com o nosso corpo mais sutil, Ánandamayakosha, e temos lampejos de ánanda, plenitude. Assim diz a Katha Upanishad (vi):

Quando os cinco sentidos e a mente estão parados, e a própria razão descansa em silêncio, começa o caminho supremo. Esta firmeza dos sentidos chama-se Yoga, mas deve-se estar atento, pois o Yoga vem e vai.4 

ánanda, essa felicidade que não depende de fatores externos e que faz parte do nosso ser, reside no coração, mas está obscurecida por alguns véus, pela nossa identificação cega com pensamentos, emoções, ego. Essa identificação se chama upadhi. A meditação é o meio pelo qual descortinamos a felicidade suprema, que reside no coração, e aprendemos a nos reconhecer como tal, mesmo que tenhamos sentido essa plenitude por meio de lampejos, como experiências ocasionais, uma vez que ela vem e vai, como diz a Katha Upanishad. O mesmo texto acrescenta: “Desfazendo os nós que estrangulam o coração, o mortal torna-se imortal. Essa é a síntese dos ensinamentos das escrituras

            Sendo assim, começando pelo nosso corpo físico, o Hatha Yoga deve nos levar ao nosso corpo mais sutil. Do mais simples shatkarma ou o mais básico dos ásanas, ao mais complexo pránáyáma ou a mais difícil meditação, é importante lembrar que o Yoga tem a finalidade de auto-realização, ou seja, fazer-nos reconhecer que somos seres plenos.

 

Tales Nunes é instrutor de Yoga e mestrando em Antropologia pela Universidade Federal de Santa Catarina.

tales_nunes@yahoo.com.br

 

NOTAS

1 Extraído do livro: Pedro Kupfer, Visões do Yoga, 2 Ed. Fundação Dharma, 2000, Florianópolis-SC, p. 36.

2 Tradução para o português feita pelo autor a partir de The Forceful Yoga, Being the Translation of Hathayoga-Pradípiká, GheraŠa-Samhitá and ®iva-Samhitá, tradução para o Inglês de Pancham Sinh e Rai Bahadur Srisa Chandra Vasu,  1ª Edição, Motilal Banarsidas  Publishers, 2004, Delhi, Índia.

3 Extraído do livro: Pedro Kupfer, Visões do Yoga, 2 Ed. Fundação Dharma, 2000, Florianópolis-SC, p. 47.

4 Extraído do livro: Pedro Kupfer, Visões do Yoga, 2 Ed. Fundação Dharma, 2000, Florianópolis-SC, p. 103.


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