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Prática

Bhrámarí, o pránáyáma nas escrituras clássicas do Hatha Yoga
Miguel Homem
13-09-2009


Bhrámarí é conhecido como o pránáyáma do som da abelha. Este pránáyáma serve como uma excelente preparação para técnicas onde se exija maior aquietamento e introspecção, e por isso é idealmente feito antes da meditação. Aliás, o pránáyáma, em si, encerra já uma óptima prática de meditação uma vez que serve mais a internalização e observação do que para a manipulação do prána.

Segue uma descrição inicial:

a)                 Sente numa posição confortável, idealmente num ambiente de silêncio;

b)                 Tape os ouvidos;

c)                  Faça uma inspiração profunda;

d)                 expire lenta e profundamente, produzindo um zumbido semelhante ao de um abelhão (bhrámarí).

Este é, sem dúvida, um pránáyáma adequado ao dosha vata que há em nós, uma vez que conforta a mente, acalma a ansiedade e pode eliminar a insónia. O dosha pitta também pode beneficiar muito do bhrámarí no acalmar de estados emocionais como a raiva e outras emoções agressivas.

Como sentar?

Pode escolher sentar-se em qualquer ásana de meditação como siddhásana, sukhásana, padmásana ou vajrásana, por exemplo. Neste caso, os braços terão de ficar elevados sem apoio para que as mãos possam tapar os ouvidos. O inconveniente é que relativamente cedo os braços se cansam e torna-se impossível seguir o bhrámarí com sucesso.

A alternativa é sentar sobre um ou dois bloquinhos de madeira ou cortiça, com as plantas dos pés apoiadas no chão, as pernas flectidas com os joelhos a apontarem para o céu, as costas o mais alinhadas e rectas possível, os cotovelos ou antebraços apoiados sobre os joelhos e as mãos sobre a cabeça tapando os ouvidos. Esta variação permite, sem dúvida, uma maior permanência, embora talvez não seja o ideal para aqueles que gostam de aparecer na fotografia ;)

Como tapar os ouvidos?

Os ouvidos podem ser tapados simplesmente com os polegares ou com os indicadores sem qualquer exigência adicional que não a do conforto.

Aqueles que conhecerem poderão fazer shanmukhí mudrá ou yoni mudrá conforme a nomenclatura da Gheranda Samhitá. Este é o gesto que fecha as sete portas da entrada dos sentidos na cabeça: ouvidos, olhos, narinas[1] e boca. Com a sugestão do mudrá não se quer mais do que intensificar o pratyáhára proporcionado pelo exercício.

Em ambos os casos é importante que o praticante se assegure que os ouvidos ficaram bem tapados e que a posição é confortável para que não haja necessidade de interromper o exercício antes do previsto. Por fim, enquanto tiver alguma inflamação nos ouvidos evite o pránáyáma.

Aprofundando:

Como forma de intensificar a introspecção e dar maior coerência interna ao pránáyáma sugere-se fazer ujjáyí na inspiração. O zumbido da expiração não precisa ser muito alto, mas apenas o suficiente para que cada um perceba a vibração dentro do crânio.

85._Uttanakurmasana

O bhrámarí pránáyáma pode ser o ponto de partida para uma prática do Náda Yoga tão exaltado na Hatha Yoga Pradípiká. Neste sentido sugere-se que depois de, num primeiro momento, se executar o bhrámarí conforme foi acima descrito, se deixe cair o som do zumbido na expiração, se cesse o ujjáyí na inspiração (no caso de ter sido feito) e se procure descortinar um som interno ao qual o praticante possa dirigir a atenção. As “sete portas” devem manter-se bem fechadas para que a busca não seja perturbada pelo exterior. Esta investigação do som interno deve ser repetida para que os frutos possam aparecer. Progressivamente os sons mais densos vai sendo abandonados e os mais subtis investigados.

Vejamos então o que nos dizem os Shástras:

“Inala-se rapidamente produzindo um som semelhante ao do vôo do zangão; depois expira-se lentamente (após a retenção com os pulmões cheios) produzindo o som do vôo da abelha. Com a prática deste exercício, os grandes yogis experimentam uma felicidade indescritível em seus corações.” Hatha Yoga Pradípiká, II, 68 [2]

O texto confirma a indicação – o som da abelha – que é a marca distintiva deste pránáyáma. Quanto à inspiração, a indicação é para que seja feita de forma rápida e com o som do zangão. De facto, para que esse som seja produzido na inspiração esta tem de ser rápida. No entanto, admite-se também que ali esteja uma referência à inspiração em ujjáyí, caso em que a inspiração poderá ser mais profunda e lenta, o que parece ser o ideal.

Quanto à retenção com ar, embora ela não conste do texto original, conforme o tradutor assinala pelos parênteses, fica a sugestão. Alguns professores consideram a retenção irrelevante no bhrámarí, enquanto outros a sugerem em fases mais complexas do exercício. Em qualquer caso, o foco não é certamente a retenção, mas sim a expiração. Assim, recomenda-se moderação.

Vejamos agora a Gheranda Samhitá, V, 78-82[3]:

“Depois da meia-noite, num lugar silencioso onde nem sequer o ruído de animais ou insectos possa ser ouvido, ele irá praticar inspiração e retenção, tapando os ouvidos com as mãos.

Então, ele irá ouvir vários sons internos no seu ouvido direito. O primeiro som será semelhante ao de um grilo, depois o de uma flauta, o trovão, o de um tambor, o de uma abelha, depois sinos, gongos, trompetas, timbales, mrdanga, tambores militares e do tambor dundubhi.

Estes sons diversos serão revelados por uma prática diária deste bhrámarí. Por fim, o som anáhata [não percutido] emerge do coração. Da ressonância deste som interior nasce uma luz, e esta luz inunda a mente. Quando a mente é absorvida alcança o assento supremo de Vishnu. Pelo sucesso no brámarí alcança-se o sucesso no samádhi.”

            Claramente, sob o nome bhrámarí é aqui descrito não um pránáyáma, mas a técnica de Náda Yoga acima sugerida e que é amplamente explorada sob o nome náda anusandhána na Hatha Yoga Pradípiká (IV, 65-105). Assim, encontramos aqui o suporte da tradição para a investigação sugerida tendo como ponto de partida o bhrámarí pránáyáma.

            A referência ao escutar pelo ouvido direito não tem necessariamente de ser entendida literalmente, uma vez aqueles sons são subtis, não percutidos. Esta investigação pode ser feita explorando a retenção ou sem retenções. Vale o bom-senso. Relembre que não é o difícil que traz resultados, mas sim o que é adequado a cada momento.

Harih Om!

[1] Claro está que o fechar das narinas deve ser entendido habilmente. Por favor não se suicide com o bhrámarí!

[2] Svátmáráma Yogendra, Hatha Yoga Pradípiká, Tradução de Pedro Kupfer, Instituto Dharma-Yogashala, 2002, Florianópilis, Brasil.

[3] Tradução para o português feita pelo autor a partir de The Forceful Yoga, Being the Translation of Hathayoga-Pradípiká, Gheranda-Samhitá and Shiva-Samhitá, tradução para o Inglês de Pancham Sinh e Rai Bahadur Srisa Chandra Vasu,  1ª Edição, Motilal Banarsidas  Publishers, 2004, Delhi, Índia e ainda de Gheranda Samhitá, Traité Clasique de Hatha Yoga, Original, Traduction, Commentaires, Jean Papin, Éditions Almora, Septembre 2005.


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