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Ásana

Reflexões sobre ajustes na prática de asana.
Miguel Homem
16-07-2012


Porquê ajustar? Para que fim?

A primeira questão que nos devemos colocar antes de decidirmos ajustar alguém é: qual o nosso objectivo?


No mundo do yoga, do hatha yoga. Os ajustes são usados de forma intensiva na linhagem de Krishnanacharya, sobretudo nas práticas de ashtanga vinyasa yoga e iyengar, mas estão quase ausentes em muitas outras formas de hatha yoga. Desta forma, o ajuste directo corporal não é uma ferramenta intrínseca de ensino dentro do hatha yoga e este continuará a existir e a ser passado adiante, com ou sem ajustes.

Significa isto, portanto, que não deve haver uma pressão de quem ensina para ajustar, nem de quem pratica para receber um ajuste.

Receber um ajuste apropriado pode ser uma experiência transformadora ou traumatizante, consoante a intenção e habilidade do professor. Neste binómio a intenção pode ser bem mais determinante do que a habilidade.

Ajustar deve ser para orientar o praticante e não para o encaixar num asana.

O risco de lesionarmos um aluno acontece quando a condição do aluno é esquecida e apenas o asana a conseguir é tido em conta. Pelo caminho o corpo do aluno resistirá ou não, dependendo do karma de ambos…
Não pode ser este o caminho.

Este risco nasce a mais das vezes de:
· Ego do professor, o querer mostrar que é capaz de marcar a prática do seu aluno, o provar-se através do ajuste;
· Um juízo pre-estabelecido em relação ao que o aluno pode ou deve conseguir fazer.

Uma boa forma de evitar este risco é nunca ajustar alguém quando:
· Não se sabe exactamente o que se vai fazer e com que intenção - se não entendemos a dificuldade de um aluno num determinado asana é uma indicação de que não estamos preparados para ajustar.
· Se quer mostrar ou provar alguma coisa aos alunos ou terceiros,
· Se vai determinado a encaixar um aluno numa posição sem olhar à sua circunstância presente.

O verdadeiro problema é que, neste submundo do ajustar dentro o yoga, existe uma ideia de que o ajuste forte e que leva o aluno onde ele nunca foi é o verdadeiro ajuste. Talvez por isso todos queiram provar-se capazes disso, por um lado, e servir esse prato aos seus alunos, por outro. A questão é, se para permitir-se a si e ao praticante essa experiência com sucesso em 10, 20, 50 ou 100 vezes, um aluno sai lesionado compensa!?
Alguns dirão que sim, outros que não, certo é que ninguém que ser essa cobaia.
Nesta questão o contexto ocidente/oriente traça uma grande diferença. Traça uma diferença do lado do praticante e do lado do professor. Regra geral, o limite a que um praticante indiano ou ocidental se leva são diferentes, bem como é muito diferente a expectativa de preservação da integridade física de ambos quando num contexto de aula.

Orientações para um ajuste seguro:


1. Respiração

Antes de ajustarmos outra pessoa e enquanto ajustarmos é importante perceber a respiração do aluno e aprender a ajustar com a respiração de acordo com o asana. Muitas vezes podemos sugerir-lhes uma respiração mais lenta e profunda, se nós próprios respirarmos de forma audível e profunda.

2. Posição estável e enraízada para ajustar

Se não houver estabilidade naquele que ajusta é pouco provável que aquele que recebe o ajuste se sinta confortável e seguro. Desconforto e incerteza do professor tendem a despertar uma reacção de defesa do aluno. Para que o aluno relaxe e o ajuste seja eficaz ele tem de sentir-se seguro e suportado (que não é o mesmo que descansar no professor).
A posição de partida adequada permite um ajuste estável, mais profundo e com menos esforço.
É importante levar em linha de conta o tamanho do nosso corpo e do aluno que vamos ajustar. Nem sempre o ajuste estereotipado, que aprendemos, serve para o nosso corpo ajustar outro. É preciso saber adaptar a nossa posição para ajustar de forma a poder estar mais estável e ser mais eficaz com menos esforço.

Assim,
a) Usar mais o peso do nosso corpo e menos força muscular é outro bom indicador.
b) se não estamos confortáveis e seguros a ajustar é provável que o aluno sinta o mesmo.
Uma vez feito o ajuste devemos assegurar-nos que o aluno permanece estável e equilibrado antes de nos afastarmos. Quanto mais profundo o ajuste, mais tempo para o aluno reencontrar o equilíbrio por si.

3. Primeiro o fundamental e depois o secundário

Primeiro ajustamos o fundamental, aquilo que até poderá causar lesões e depois o secundário. Se verificarmos que vários alunos precisam de um ajuste semelhante, a indicação verbal é preferível a ajustar cada um individualmente.

4. O toque

O toque noutra pessoa levanta uma série de questões que o bom senso e ética resolvem por si com o que se evita cair na tentação de moralizar os demais.
Para alguns professores usar os pés, pernas, ou joelhos para ajustar é visto como uma forma de desrespeito. Outros usam as mãos para ajustar os glúteos dos alunos. De facto, se um aluno tem dificuldade em subir no utplutih uma mãozinha (ou duas) nos glúteos para ajudar a ficar no ar são uma real ajuda, mas será que é preciso? Será que o aluno recebe bem isso?
Um boa regra é lembrar que se ajusta para ajustar e não para tocar.
Alguns professores acham imprescindível pedir autorização para ajustar de cada vez que se aproximam do aluno. Isso pode tornar-se cansativo e perturbador.
Pessoalmente parece-me que menos pruridos e mais rectidão tornam a questão menos questão :) 

Todas estas orientações pressupõem que uma vez chegado ao ajuste de facto, o professor sabe o que fazer. Assume-se por isso que o professor aprendeu com alguém. Idealmente não se limitou a ver fazer, mas foi ensinado.


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