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Practice

Meditação passo a passo - A Prática
Miguel Homem
13-06-2010


  1. Sentar


Primeiro temos de escolher um lugar apropriado. O lugar tem de ser limpo - shuchau deshe pratishthápya (Bhagavad Gítá, VI, 11). Um local de envolvência agradável, seja natural, seja criado por nós, que nos seja agradável. Criamos uma atmosfera condizente à meditação. Um local especial que por associação trará a meditação. Que a envolvência seja agradável é muito importante para não se despertar o ser insatisfeito, desagradado.


Depois escolhemos o assento. Não muito firme nem muito mole, nem alto nem baixo. Evitamos sentar directamente no chão.

A seguir a escolha da posição sentada. Valem aqui as indicações comuns a propósito da posição sentada. O importante é que cada um encontre um ásana confortável onde possa permanecer sereno por um tempo considerável sem necessidade de se mover. Isso acontece com a prática e o treino.
Devemos manter as costas rectas, o corpo relaxado, mas estável. É costume sugerir-se que se pousem as mãos sobre o colo ou pés com os dedos entrelaçados e os polegares tocando-se. Mais uma vez, vale o gesto das mãos que melhor se adequar a cada um.


Samam káyashirogrívam dhárayannachalam sthirah
Samprekkshya násikágram svam dishashchanavalokayan
"Mantendo-se firme e imóvel, com o corpo, cabeça e pescoço alinhados, (como se) olhando para a ponta do próprio nariz e não em outras direcções." Bhagavad Gítá VI, 13.

Sthira é a palavra usada por Patañjali, nos Yoga Sútras. Existem dois significados para a palavra ásanam. Existe a posição física e depois o assento onde sentamos.
Depois de dizer onde sentar, sobre que se sentar, KrshŠa ensina sobre como se sentar. Na meditação não queremos ser perturbados pelo corpo por isso adoptamos uma posição estável, sem sobrecarga de uma parte específica do corpo. Assumimos o compromisso de sentar por um muhúrtam, aproximadamente 48 minutos. Isso traz-nos o siddhi (a perfeição) no ásana. A ideia não é sentar firme por 5 minutos e trocar a cada 5.
Evitamos deixar a cabeça cair, porque isso é o primeiro passo para o sono. O olhos podem manter-se abertos ou fechados. Se os olhos estão abertos não vêm além do nariz, isto quer dizer que não fixam objectos externos. Não é fixar a ponta do nariz. O objectivo não é meditar na ponta do nariz, mas não olhar nem para cima, nem para baixo. Se durante a meditação o olhar estivesse fixo na ponta do nariz esse tornar-se-ía o objecto de meditação. Idealmente fechamos os olhos.

  1. Olhar

A cabeça voltada em frente, com as pálpebras fechadas. As pálpebras devem fechar-se gentilmente, sem tensão e sem criar rugas. Nas estátuas de Buda é comum ver-se as pálpebras fechadas e completamente lisas. Procura-se manter esse mesmo semblante.

  1. Objectividade - manter o mundo externo, externo.

A meditação acontece quando a pessoa essencial que somos é encontrada. E para que ela seja encontrada é preciso que a pessoa esteja só. Só, não apenas externamente, mas só na sua mente.
Krshna ensina na Bhagavad Gítá (V- 27), báhyán sparshán bahih krtvá, manter os objectos externos, externos.
A maior parte do tempo trazemos connosco uma autêntica procissão de família, amigos e inimigos. No momento da meditação é preciso abandonar a procissão :) Isso acontece quando se deixa cair o desejo de querer que as pessoas mudem. Temos de entender que as impressões que as pessoas deixam na nossa mente são baseadas na nossa percepção. Assim, em relação a cada uma das pessoas que estão na nossa mente, reconhecemos que é assim que cada uma delas é na nossa percepção. E sabemos que a nossa percepção pode estar correcta ou errada. É, apenas, a nossa percepção. Aceitamos essa realidade e então somos objectivos. Da mesma forma que somos objectivos em relação ao nosso corpo e respiração, somo-lo em relação à nossa mente.

a) Visualize a natureza
Procuramos não imaginar, mas apenas visualizar o que já conhecemos. Por exemplo, podemos visualizar um bosque, um pôr do sol. Em relação à natureza somos objectivos. Aceitamo-la como ela é. Não queremos que o pôr do sol ou uma montanha sejam diferentes do que são. Tornamo-nos um sujeito não reivindicativo, apreciativo e consciente.

b) Pessoas
Em relação às pessoas que pululam na nossa cabeça também podemos ser objectivos, aceitando-as como elas são. Em relação a cada uma assumimos que é assim que a pessoa é ou era na nossa percepção e se a pessoa nos incomoda, somos objectivos - tal qual o fomos em relação à natureza - e damos-lhe a liberdade para ser como é. Dessa forma, libertamos e libertamo-nos de cada pessoa que nos perturba.

  1. Corpo

Trazer a atenção para o corpo e mentalmente percorrer o corpo todo. Percebemos o corpo em relação à altura, peso, género, idade, saúde, cor e aspecto pelo que nos tornamos objectivos em relação ao corpo.
  1. Respiração - pránavíkshanam

Prána apánau samau krtvá (Bhagavad Gítá V, 27) - manter o ritmo da inspiração e expiração regular. Testemunhar a respiração, a inspiração e expiração, sem com isso se alterar o ritmo e a cadência. Isso traz sossego à mente.

  1. Tacto

Perceber a sensação do toque por todo o corpo, nomeadamente o contacto do corpo no chão, as mãos e as pálpebras.

  1. A mente


Observar a mente. Aquele que é consciente da mente é quem somos, a pessoa essencial. Esta pessoa essencial relaciona-se com Íshvara numa forma particular que pode ser invocada através de um pújá mental ou de um mantra.

Japa

"Yajñánám japayagno'smi. Entre os yajñas, eu sou o yajña japa." Bhagavad Gítá, X, 25


Começa então a repetição do mantra. Se a pessoa não tem um mantra pode fazer por exemplo, Om Ísháya namah, a Ísha, Íshvara, o meu namaskára, a minha saudação. A repetição mental não está ligada à voz e à respiração. Deve-se assegurar que a repetição não está sincronizada com o ritmo respiratório nem com uma vocalização subtil. Japa tem de ser um exercício completamente mental. As pessoas costumam usar a voz na repetição. Temos de acelerar a repetição, se a respiração se perturbar é porque não é mental. Uma forma simples de separar a repetição mental da voz e da respiração é interromper o japa para fazer um exercício mental como matemática. Escolher um número e somar, multiplicar, dividir e subtrair. Isso traz a atenção, apenas, para o mental. A partir daí, a repetição mental acontece naturalmente.


O compromisso está com a repetição do mantra e com a observação do espaço de silêncio entre cada repetição. As distracções acontecem no intervalo, por isso quando se está atento a esse intervalo as distracções reduzem-se.
Quanto se pára a repetição, repare que a vontade própria não surge logo, não a usamos, somos apenas nós mesmos. Nesse silêncio somos nós mesmos e com a repetição isso não se altera. Na meditação, fora dela, esse Ser Consciente que somos mantêm-se inalterado testemunhando todas as mudanças que são, apenas, externas a nós mesmos.

Podemos perceber isso, recomeçando e parando várias vezes a repetição. Reparamos que para sermos nós mesmos não existe esforço envolvido. Percebemos o conforto sendo nós mesmos. Não precisamos de conforto externo. Somos livres para ser a fonte de conforto para outras pessoas, porque nós mesmos percebemos esse conforto em nós, sem esforço.

Pela prática e repetição,abhyása, a meditação repetida revelar-nos-à aquele espaço e conforto.

sríbhagavánuváca |
asamshayam mahábáho mano durnigraham calam |
abhyásena tu kaunteya vairágyena ca grhyate || 35||

"Shrí Bhagaván disse:
Não há dúvida, Arjuna, ó de braços poderosos! A mente é agitada e difícil de domar. Mas Kaunteya (Arjuna)! É dominada pela prática e pela objectividade." 

(Bhagavad Gítá, VI, 35).


Este texto é uma actualização do artigo "A prática da meditação clássica


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